terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

No banheiro


Unindo o inútil ao desagradável
 

Teminha indigesto.

Sobre o que as pessoas fazem de curioso durante aquele momento mais íntimo com ela mesma, sentada no trono e reinando soberana.

Vou começar pelo meu tio de Ribeirão Preto. É fácil identificar quando ele está prestes a visitar o dito cujo. Fica desesperado procurando um gibi, preferência pelo Tio Patinhas.

Já um amigo meu, cujo nome não revelo nem sob tortura, adora fazer contas. Inclusive leva papel, caneta e calculadora. Está pensando, me disse, em comprar uma mesinha portátil para montar à frente e facilitar o serviço.

Já me disseram, não lembro quem foi, que a prima não visita o ambiente sem levar um álbum de fotografias antigas, para relembrar.

Não é novidade que muitas pessoas utilizam o referido momento para se por em dia com as informações. Carregam jornais e revistas, aproveitando o tempo para a devida atualização. Os mais moderninhos, ainda não tive notícias, levam o notebook para se conectar à internet e viajar sossegado por mares nunca dantes navegados.

Há também as realizações impublicáveis, esta eu deixo ao encargo da imaginação fértil de cada um dos leitores, mas que dá uma vontade de relacionar isto dá. Poupando o escracho, mas sem ficar a dever nada, não poderia deixar de citar a minha bizarra ocupação no instante profundo e sereno do banheiro:

Aproveitar o reflexo da luz do teto para, com as mãos, ficar criando sombras com figuras de animais e monstros no piso. E antes que queira rir disto e me ridicularizar, vai querer dizer que fica ali impávido, sem produzir qualquer reação, única e exclusivamente aguardando o exato momento M e só?

Conta vai.
 
(publicado originalmente no Blog da Uol, em 12-9-2007)
 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O elo da morte


Todo mundo quer ter ligação com o defunto.

 

Quem me conhece já ouviu esta minha “teoria macabra”. Quem não conhece, confira e diga se não tenho razão.

Toda vez que morre uma pessoa, independente das questões comuns que se sucedem ao acontecimento drástico, é possível observar A NECESSIDADE QUE AS PESSOAS TÊM DE CRIAR UM ELO COM O DEFUNTO OU A DEFUNTA. Segue alguns modelos mais comuns de ligação.

1. Era meu parente distante.

2. A filha dele estudava com a minha filha.

3. Passei por ele ontem na rua.

4. Era vizinho do meu cunhado.

5. A irmã da minha cunhada era professora de história do filho dele.

6. Eu passei na hora do acidente. Tinha acabado de acontecer.

7. Nós fazíamos aniversário no mesmo dia.

8. Era da mesma cidade que eu.

9. Estudamos juntos o ensino fundamental.

10. Tinha um carro igualzinho ao meu.

11. Falei com ele ontem.

12. Sonhei com ele esta semana.

13. Jogava futebol de salão toda quarta com a gente.

14. Torcia pro mesmo time que eu.

15. Trabalhava na mesma empresa que eu.

16. Era filho de um colega de trabalho.

17. A minha vizinha estava passando por lá na hora.

18. Ficamos internados no mesmo quarto do hospital.

19. Fizemos balé na mesma escola.

20. Fazíamos natação juntos.

21. Morava na minha rua.

22. Íamos fazer vestibular para o mesmo curso.

23. Era da minha igreja.

24. Fizemos 1ª comunhão juntos.

25. Fomos juntos no último retiro da Igreja.

26.................................................................(espaço reservado para o seu elo).

A verdade é que, se alguém faleceu, ninguém quer ficar de fora. Vasculha no “âmbito das coincidências” para ter ali um elo e, em consequência, dar vazão ao momento de compaixão e fraternidade.

Ontem faleceram muitas crianças famintas na África. Eram criancinhas como nós!
 
(publicado originalmente no Blog da Uol, em 30/4/2007)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Saudadinha do meu blog

Crônica da vida que passa desesperada


Olá meu blogzinho solitário. Quanto tempo não te visito, né? Imagina as coisas que me aconteceram desde a última vez que postei. Na verdade, tirei um tempo hoje, curtíssimo como sempre, pra te visitar. É como se estivesse de volta à casa paterna. É a lembrança da goiabeira carregada no quintal do meu avô. As pessoas que estão acostumadas a visitá-lo sempre me perguntam de você:

- E aí, novidades? Querendo saber se você está com uma roupinha nova.

Isto quer dizer: crônica nova.

Soam pra mim às vezes como uma cobrança, outras como uma cumplicidade feliz. Que elo interessante eu, eles e você. Será que vai ser difícil falar aquilo que eles estão precisando naquele momento? Ou será que as coisinhas encucadas aqui na minha cachola vão ser exatamente aquelas que eles estão vivendo. Acho que sim, né?

Porque se você parar pra pensar e vomitar as palavras aí, elas vão estar inseridas no contexto deste planetinha louco de idéias e viagens.

A melhor imagem que eu consegui para simplificar esta minha análise foi a seguinte: sabe aquelas pedras que ficam no fundo do mar e o tempo se encarrega de ir cravejando umas pedras preciosas no seu limbo?

Pois é: os comentários que meus amigos vão postando em cada uma delas são um tesouro que quando eu iniciei esta brincadeirinha sequer imaginei merecer.

Simplesmente aconteceu, fiquei rico.

(publicada originalmente no blog Uol - 10/9/2007

terça-feira, 28 de agosto de 2012

As duas faces da mesma moeda

Falando sobre as tais carências afetivas.
Sempre a explicação é de que o outro não dá atenção suficiente.
Então é assim. Ou você é o que sufoca, e se dedica total e irrestritamente,
ou você é omisso e desinteressado. Como se faz a leitura?
Eu sou o sufocador da novela das oito.
O que não deixa respirar, o que quer saber teu nome, tua casa, teu sexo, teu trabalho. Conhecer o teu pai, tua mãe, tua filha. Aquele que sabe o que você vai comer no almoço ou tomou no café da manhã, a que horas dormiu e quantas vezes acordou.
Teu aniversário, a ração do teu cachorrinho, as ruas por onde andou, os lugares por que passou, os amigos com quem encontrou.
Quem foram os homens da tua vida, as camas que você deitou, a música que te tocou.
Teus livros, teu signo e os que combinam com ele.
Teu celular, o telefone da tua casa, do teu trabalho, onde moram teus avós e tuas irmãs. Onde foi o final de semana, a peça ou o filme que assistiu.
Que horas saiu, que horas chegou, que roupa você usou. Quem fez o teu passado, quem pode estar no teu futuro. Sou o que quer te modificar.
Eu
Só sei ser
Assim:
Intenso e profundo.
Não era isto o que você queria? Assim sou eu.
Acho que é bem melhor viver do outro jeito.
O raso e largo.
É melhor ter liberdade, ninguém para te controlar. Mas e a carência, a necessidade de atenção?
Dá-se um jeito.
Mas, e a minha carência? E tudo o que eu queria pra mim?
Esta não tem jeito.
Você não sabe sequer que horas vou trabalhar ou se estou procurando emprego. Eu parei em frente de uma fábrica com a placa:
TEMOS VAGAS.
Parece o meu coração.

(publicado originalmente no Blog Uol, 24/5/2008 - Campo Grande/MS)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Romance antigo

Eu sempre sonhei ter um ROMANCE ANTIGO na minha história, destes que você precisa esconder pelo resto da vida. Romance que, anos depois, já com outra pessoa há muitos anos, vc pudesse ainda encontrar e se abalar. Que mesmo vivendo bem, criando filhos, sendo bem sucedido profissionalmente, tendo morado em diversos lugares e voltado ao mesmo lugar, sentisse a vontade de passar naquela casa só pra ver se ela ainda mora lá. Romance daqueles que pudesse dizer: ela foi o grande amor da minha vida. Eu sinto inveja das pessoas que tiveram este romance pra não contar pra ninguém.

(6.8.2012 - Campo Grande)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Essa tal felicidade (duas histórias de vida)

José tem um amigo pobre que mora na Moreninha 8, acorda às 3 da matina.
A Jennyfer Myrna, companheira dele, acorda 2 e meia para preparar a marmita.
Ela vai ganhar o Walkisson Robert ou Wyrna Rackelly daqui a 2 meses e nunca fez
pré-natal.
O sonho do Kléverson Matheus, este amigo do José, é comprar uma bicicleta nas Casas Bahia,
em 18 prestações,
Para poder acordar meia hora mais tarde.
Aí, ele acha que vai ser um cara totalmente feliz!
A marmita ele vai continuar comendo fria,
Na sombra da torre do outro lado da Afonso Pena,
onde José mora, num triplex de cobertura.
Engenheiro florestal aposentado de uma
multinacional, ele
tem tudo que quer:
4 vagas ocupadas na garagem,
3 carros são importados.
Ele e a Maria, sua esposa, viajam trimestralmente para a Europa,
no que chamam de pequeno tour de uma semana.
No final do ano, uma viagem mais relaxante de mês e meio
pelos países baixos. Filho mais velho faz cinema em New York,
filha do meio namora o filho do governador. Filho mais novo tem um Audi 4.
José adora jogar golfe, parapente e ultraleve. Sempre só.
Este é o final de semana.
Já o Kleberson Matheus, todo final de semana engata um churrasco em família,
ao som de Mc Chicão. Nunca tirou férias, no máximo feriadão com a galera na Prainha de Anastácio. Na última vez, Paulinho mecânico morreu afogado.
Deus o quis de volta.

José, o rico infeliz, conheceu o Kléverson Matheus, o pobre quase feliz, quando este reformou o seu banheiro de 4 X 8,
mesmo tamanho da casa dele.
Quis dar de presente a bicicleta, Kleverson Matheus não aceitou. Ele acha que tem que comprar com o dinheiro do seu próprio suor.
Assim as coisas têm mais valor.

 (escrita em 14.10.2008)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Assaltante educado


Prezada assaltada:

Ontem eu te assaltei perto da Avenida Ernesto Geisel.
Você estava com uma amiga.
Primeiro quero dizer que achei as duas muito simpáticas e a tua amiga tem um corpão de fechar comércio, a ponto de me distrair na minha atividade profissional.
Queria sinceramente pedir desculpas por tê-la esfaqueado, mas o momento crucial é uma investida em que a gente não sabe se vai continuar vivo ou não.
Neste momento precisamos estar influenciados por algum tipo de entorpecente, para aguentar o estresse.
Tive um pouco de pena de você quando, alguns minutos depois, revirei tua bolsa. Cinco reais para quem parecia ir a um passeio é realmente muito pouco.
Você deve estar numa pior, minha cliente. E em consequência, frustrou meu trabalho.
Fiquei lisonjeado quando vi que no boletim de ocorrências me deu 25 anos. Na verdade tenho 37. Só de cadeia já cumpri 16.
Outra coisa, a moto não é 125 cilindradas e nem é preta.
É uma 400 cilindradas, cinza.
Sugiro procurar um oftalmologista.
A tua bolsa joguei perto do McDonalds da Afonso Pena.
Espero que consiga melhorar teu padrão de vida.
Eu vou procurar clientes melhores, que a minha vida também está muito difícil.