terça-feira, 28 de agosto de 2012

As duas faces da mesma moeda

Falando sobre as tais carências afetivas.
Sempre a explicação é de que o outro não dá atenção suficiente.
Então é assim. Ou você é o que sufoca, e se dedica total e irrestritamente,
ou você é omisso e desinteressado. Como se faz a leitura?
Eu sou o sufocador da novela das oito.
O que não deixa respirar, o que quer saber teu nome, tua casa, teu sexo, teu trabalho. Conhecer o teu pai, tua mãe, tua filha. Aquele que sabe o que você vai comer no almoço ou tomou no café da manhã, a que horas dormiu e quantas vezes acordou.
Teu aniversário, a ração do teu cachorrinho, as ruas por onde andou, os lugares por que passou, os amigos com quem encontrou.
Quem foram os homens da tua vida, as camas que você deitou, a música que te tocou.
Teus livros, teu signo e os que combinam com ele.
Teu celular, o telefone da tua casa, do teu trabalho, onde moram teus avós e tuas irmãs. Onde foi o final de semana, a peça ou o filme que assistiu.
Que horas saiu, que horas chegou, que roupa você usou. Quem fez o teu passado, quem pode estar no teu futuro. Sou o que quer te modificar.
Eu
Só sei ser
Assim:
Intenso e profundo.
Não era isto o que você queria? Assim sou eu.
Acho que é bem melhor viver do outro jeito.
O raso e largo.
É melhor ter liberdade, ninguém para te controlar. Mas e a carência, a necessidade de atenção?
Dá-se um jeito.
Mas, e a minha carência? E tudo o que eu queria pra mim?
Esta não tem jeito.
Você não sabe sequer que horas vou trabalhar ou se estou procurando emprego. Eu parei em frente de uma fábrica com a placa:
TEMOS VAGAS.
Parece o meu coração.

(publicado originalmente no Blog Uol, 24/5/2008 - Campo Grande/MS)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Romance antigo

Eu sempre sonhei ter um ROMANCE ANTIGO na minha história, destes que você precisa esconder pelo resto da vida. Romance que, anos depois, já com outra pessoa há muitos anos, vc pudesse ainda encontrar e se abalar. Que mesmo vivendo bem, criando filhos, sendo bem sucedido profissionalmente, tendo morado em diversos lugares e voltado ao mesmo lugar, sentisse a vontade de passar naquela casa só pra ver se ela ainda mora lá. Romance daqueles que pudesse dizer: ela foi o grande amor da minha vida. Eu sinto inveja das pessoas que tiveram este romance pra não contar pra ninguém.

(6.8.2012 - Campo Grande)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Essa tal felicidade (duas histórias de vida)

José tem um amigo pobre que mora na Moreninha 8, acorda às 3 da matina.
A Jennyfer Myrna, companheira dele, acorda 2 e meia para preparar a marmita.
Ela vai ganhar o Walkisson Robert ou Wyrna Rackelly daqui a 2 meses e nunca fez
pré-natal.
O sonho do Kléverson Matheus, este amigo do José, é comprar uma bicicleta nas Casas Bahia,
em 18 prestações,
Para poder acordar meia hora mais tarde.
Aí, ele acha que vai ser um cara totalmente feliz!
A marmita ele vai continuar comendo fria,
Na sombra da torre do outro lado da Afonso Pena,
onde José mora, num triplex de cobertura.
Engenheiro florestal aposentado de uma
multinacional, ele
tem tudo que quer:
4 vagas ocupadas na garagem,
3 carros são importados.
Ele e a Maria, sua esposa, viajam trimestralmente para a Europa,
no que chamam de pequeno tour de uma semana.
No final do ano, uma viagem mais relaxante de mês e meio
pelos países baixos. Filho mais velho faz cinema em New York,
filha do meio namora o filho do governador. Filho mais novo tem um Audi 4.
José adora jogar golfe, parapente e ultraleve. Sempre só.
Este é o final de semana.
Já o Kleberson Matheus, todo final de semana engata um churrasco em família,
ao som de Mc Chicão. Nunca tirou férias, no máximo feriadão com a galera na Prainha de Anastácio. Na última vez, Paulinho mecânico morreu afogado.
Deus o quis de volta.

José, o rico infeliz, conheceu o Kléverson Matheus, o pobre quase feliz, quando este reformou o seu banheiro de 4 X 8,
mesmo tamanho da casa dele.
Quis dar de presente a bicicleta, Kleverson Matheus não aceitou. Ele acha que tem que comprar com o dinheiro do seu próprio suor.
Assim as coisas têm mais valor.

 (escrita em 14.10.2008)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Assaltante educado


Prezada assaltada:

Ontem eu te assaltei perto da Avenida Ernesto Geisel.
Você estava com uma amiga.
Primeiro quero dizer que achei as duas muito simpáticas e a tua amiga tem um corpão de fechar comércio, a ponto de me distrair na minha atividade profissional.
Queria sinceramente pedir desculpas por tê-la esfaqueado, mas o momento crucial é uma investida em que a gente não sabe se vai continuar vivo ou não.
Neste momento precisamos estar influenciados por algum tipo de entorpecente, para aguentar o estresse.
Tive um pouco de pena de você quando, alguns minutos depois, revirei tua bolsa. Cinco reais para quem parecia ir a um passeio é realmente muito pouco.
Você deve estar numa pior, minha cliente. E em consequência, frustrou meu trabalho.
Fiquei lisonjeado quando vi que no boletim de ocorrências me deu 25 anos. Na verdade tenho 37. Só de cadeia já cumpri 16.
Outra coisa, a moto não é 125 cilindradas e nem é preta.
É uma 400 cilindradas, cinza.
Sugiro procurar um oftalmologista.
A tua bolsa joguei perto do McDonalds da Afonso Pena.
Espero que consiga melhorar teu padrão de vida.
Eu vou procurar clientes melhores, que a minha vida também está muito difícil.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Complexo de Cinderela


Minha prima quer casar.

Ela é gordinha (um metro e sessenta, com 65 quilos). Tem 27 anos. Fez o Ensino Médio.

Ela procura um homem bonito, inteligente, emprego estável e renda razoável.
Forte, 1,80m, sarado/malhado, barriguinha tanquinho, romântico, carinhoso, gentil, atencioso.
Que saiba fazer massagem, adore beijar na nuca, que abra a porta do carro.
Que pague as contas sem perguntar o que está pagando, que não coloque o pé sobre a mesa, que não fale palavrões, que não fume, que goste de passear pacientemente no shopping.
Que adore tomar um vinho tinto, que abaixe a tampa do vaso, que goste de natação e não de futebol, que curta MPB, que seja um bom dançarino e seja fiel, PLENAMENTE FIEL.
O rapaz aqui do lado disse:
- Assim até eu quero!
Minha prima, como tantas outras “mocinhas casadoiras” que ainda existem (sim, ainda existem!), sofre ainda do “complexo de Cinderela”.
Mas, e este príncipe encantado, que vem no cavalo branco, existe?
Deve existir, parece que acharam um no interior da Austrália.
Quando o encontraram “deu dois suspiros e depois morreu”.
(publicado originalmente no Blog da UOL, dia 17.05.2007)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Coisas de pobre

Pobre adora y, w, k. A começar pelos nomes, Wesley, Gleicy Kelly, Richarlyson.
A roupa também tem características próprias:
Para a menina, uma sainha curta jeans, topzinho bem colorido, umbiguinho com um piercing dependurado, sandalinha rasteirinha.
Ele vai de boné de tricô ou time indispensável, calça jeans indispensável, Nike shox falso indispensável.
Para o rico, blazer e a riquinha de tailleur.
Quesito gosto musical,
Já viu um pobre que não goste de funk ou hip hop?
Festa de pobre sem créu é impossível.
(Todo mês tem show na Fernando Correia da Costa e
Noite da Seresta na Praça do Rádio,
Zeca Pagodinho e Moacir Franco imperdíveis,
governo é quem paga tudo).
Quesito encher o bucho
Exige também a diferença de classes.
Para os ricos, presunto sadio,
Para os pobres apresuntado.
Para os ricos, chocolate,
Para os pobres, achocolatado.
E o prefixo A quer dizer sem. É como um genérico.
Festa de rico, camarão e lula a oito e noventa, no Extra.
Festa de pobre, churrasco de ponta de costela a oito e noventa, no açougue do Kleydson, sempre no “rachid” com os amigos.
Celular de pobre é pré-pago com muitos bônus e vai sempre no bolso traseiro direito. Ah! Tem cam!
Muitas das vezes, a gatinha simula estar falando com o namorado, porque ele não liga nunca (outra operadora).
Celular do filho do rico, o Riquinho, tem Tecnologia 3g, mas o menino não tem para quem ligar!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A invasão dos beija-flores

Problemas acontecem sem a gente esperar. Era pra ser um sábado normal. Logo de manhã, tão logo abri a porta da sala, ela foi invadida por dois beija-flores.
De cara o problema ortográfico: beija-flores, beijas-flores? E agora ainda a reforma ortográfica recente: com hífen ou sem hífen? E o hífen, continua com acento?
Eram dois bem diferentes um do outro. Não que eu possa afirmar, mas me pareceram a mãe e filho, no primeiro vôo dele, que a mãe sempre acompanha. Uma questão que nunca vou decifrar.
A gestação deles dura 13 a 15 dias e é a mãe que resolve tudo: constroem os ninhos, chocam os ovos e protegem os filhotes. Eles visitam 1.500 flores por dia.
 A mãe tinha uns 8 cm e a pontinha de trás era como das andorinhas. O filho tinha uns 5 cm, sem nada atrás.
Foram várias as tentativas educadas e sensibilizadas para que os dois se retirassem da minha sala, preocupado em não feri-los. Tentei com o vizinho, que é limpador de piscina, mas ele não estava em casa para me emprestar uma rede para ajudar na orientação. Quando saímos de manhã, deixamos a porta aberta, na esperança que, quando voltássemos, eles já pudessem estar bem longe.
Distraí-me no intenso movimento do sábado, de forma que novamente ao entrar em casa, deparei-me surpreso com o ilustre visitante. A mãe já tinha ido.
De tarde fiz novas tentativas frustradas de fazer o pequenino ganhar o mundo.
O beija-flor ou colibri tem a língua bifurcada pra sugar o néctar da flor. Lembrando disto, usei outra técnica. Coloquei um pote com água e açúcar na entrada da sala, ao lado de uma bela flor amarela, para ajudá-lo a achar o caminho. Não resolveu. E ainda ouvi a crença infundada da minha mulher de que isto causa uma doença que o leva à morte. Tive que pesquisar na internet.  
O coitado ficava lá perto do teto batendo as asas e pairando, 70 a 80 vezes por segundo até. E voando para trás, como única ave capaz de fazer isto. De vez em quando o bandô da cortina servia como descanso.
Não dava pra chamá-lo porque não sabia a língua dele. Tentei imitar seu canto, agudo e seco, mas nunca fui bom imitador de passarinhos. Cantar aquela música do Pepeu Gomes seria ridículo (...beijo a flor, mas a flor que eu desejo...). Lembrei também a do Cazuza (...eu protegi teu nome por amor, em um codinome beija-flor...). Menos indicada ainda.
Tive q sair novamente. A porta ficou aberta como antes.
De noite quando voltei, ele tinha morrido na minha sala.
(escrita em 7.4.2009)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O carteiro solitário

Uma matéria no Estadão me chamou a atenção: Carteiro é acusado de roubar cartas durante 10 anos. Fico aqui imaginando a solidão do coitado. Ninguém lhe escrevia, ninguém queria saber como estava. Sabe o que é vc passar anos a fio sem ninguém se interessar pela sua vida? Como passou o ano? como foi nas provas do EJA? como vai sua família? É triste! E na sua profissão: foi promovido? Quantas cartas entrega por dia? Por quantos cachorros foi mordido? Aquele chefe FDP foi transferido?
A solidão é a responsável pelo grande número de suicídios! Ninguém imagina que parar à sombra de uma árvore para descansar, ler uma cartinha contando que conseguiu finalmente um emprego em Londres, possa ter salvo a vida deste homem. Ele ali, solitário e feliz com o sucesso de alguém que nem sequer conhece, se solidarizando. Isto e tantas outras coisas o salvou da morte, da vida nefasta e entediosa de entregador de alegrias e tristezas em domicílio.

A MATEMÁTICA DO BRASIL

O Brasil tem a SEXTA ECONOMIA DO MUNDO. TIRA os 20% da CORRUPÇÃO, SOBRA a OCTAGÉSIMA QUARTA posição no IDH: Índice de Desenvolvimento Humano.
O IDH é a  interpretação de indicadores sociais: aumento da expectativa de vida, queda da mortalidade infantil, acesso a saneamento básico, coleta de lixo e diminuição da taxa de analfabetismo.
Além disso, há nítidas diferenças regionais, especialmente em relação ao nível de renda: os 20% mais ricos vivem em condições melhores que a fatia mais rica de países como Suécia, Alemanha, Canadá e França e e uma maioria com o padrão de vida dos pobres da Índia.
O GARGALO DA CONTA é indubitavelmente nos 20% da CORRUPÇÃO que ENODOA, MACULA, DESONRA, DIFAMA, EMPORCALHA, ENXOVALHA, MANCHA, SUJA. Ajuda aí:
- VICE-CAMPEÃO MUNDIAL de FUTEBOL.
Pano rápido.

Day after: a lama

É sempre assim: a propalada modernidade não aguenta meia hora de chuva. Obras ainda nem inauguradas deixam um rastro de destruição, desconforto e, pasmem os mais emocionais, morte... Onde estamos falhando? É comum ouvir das "pessoas comuns"que o prefeito tá roubando, que o governador comprou uma fazenda, que o vereador tem uma empresa que "mama" na prefeitura pra fechar com o prefeito. Segundo "dizem", isto tudo é culpa do PF (por fora): uma comissão de 20% que é a materialização de uma instituição genérica chamada CORRUPÇÃO.
A CORRUPÇÃO derruba 3 prédios no Rio de Janeiro, desbarranca as encostas de Angra dos Reis, mata seringueiros na Amazônia, inunda Santa Catarina e mata índios no Mato Grosso do Sul. Acima de tudo, ela arranca vidas miseráveis do seio deste gigante adormecido, deitado em berço esplêndido!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Insegurança pública

O que eu digo pro meu filho mais novo?

Meu caçula tem 13 anos. Sexta-feira entraram em casa e roubaram nosso aparelho DVD, comprado em 6 prestações no Carrefour. Não tinha ninguém em casa. Os habitantes ou estavam trabalhando, ou estavam estudando. Empregada já não se tem condições de pagar há um bom par de anos e a casa vive sozinha.
Pois bem. Detenho-me em 3 aspectos básicos.

1º aspecto: A sensação de impotência diante daquele que sub-repticiamente adentra a unidade mínima e essencial no capitalismo selvagem: minha única e verdadeira “propriedade”, comprada em 15 anos de prestação e trabalho continuado. Aquele primeiro olhar para o ponto onde se encontrava o objeto do teu suor é uma sensação indescritível de dor e desânimo.

2º aspecto (talvez o mais importante deste relato): No final de semana investiguei, descobri  quem me surrupiou o objeto, onde mora, sua idade (16 anos), o problema social de origem (viciado em drogas, expulso de casa, morador de rua e ladrão contumaz), encontrei as testemunhas, a boca onde trocou e cheirou meu DVD. Passo seguinte, relutei mas fui convencido a fazer um B.O. (Boletim de Ocorrência). Constatação básica: nunca mais vou ver o meu aparelho DVD e duvido muito que a polícia vá ao menos atrás. Quando se tem a origem honesta do produto, a investigação, o ladrão, as testemunhas, o destino do produto, o que mais falta além do combustível?

3º aspecto: Aquele meu filho de 13 anos, que conhece há anos a nossa luta, melhor, a nossa guerra, perguntou se eu estou com os nossos impostos em dia. Respondi que paguei todos eles, parcelado e com muito sacrifício. Aí ele me perguntou se o Estado que me devora a maior parte do salário em impostos, não teria obrigação de repor este bem. Que explicação mais convincente poderia dar a ele para encerrar este capítulo da minha história?

Assinado, o cidadão.

(publicada originalmente em 26.4.2007)

No princípio era o verbo.

Em abril de 2007 eu criei um blog no portal UOL. Escrevi até maio de 2008. Depois disto perdi o tesão por um tempo. Tempos depois, tive vontade de voltar a escrever, fiz mts textos mas não postei. Como prometi para milhares de 3 pessoas que retornaria em janeiro de 2012, antes do fim do mundo, cá estou de novo! Espero que possa me divertir e divertir com estas crônicas, assim como tenho me divertido no Facebook e no Twitter. O único compromisso que quero ter é com o descompromisso de postar regularmente, porque isto definitivamente me tira o prazer. Assim como iniciei um livro em 97 e ele ainda está no terceiro capítulo, não quero ficar escravo das postagens mal acabadas e insossas. Vou começar postando novamente as crônicas daquela época que ainda tiverem ou fizerem sentido.