segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Essa tal felicidade (duas histórias de vida)

José tem um amigo pobre que mora na Moreninha 8, acorda às 3 da matina.
A Jennyfer Myrna, companheira dele, acorda 2 e meia para preparar a marmita.
Ela vai ganhar o Walkisson Robert ou Wyrna Rackelly daqui a 2 meses e nunca fez
pré-natal.
O sonho do Kléverson Matheus, este amigo do José, é comprar uma bicicleta nas Casas Bahia,
em 18 prestações,
Para poder acordar meia hora mais tarde.
Aí, ele acha que vai ser um cara totalmente feliz!
A marmita ele vai continuar comendo fria,
Na sombra da torre do outro lado da Afonso Pena,
onde José mora, num triplex de cobertura.
Engenheiro florestal aposentado de uma
multinacional, ele
tem tudo que quer:
4 vagas ocupadas na garagem,
3 carros são importados.
Ele e a Maria, sua esposa, viajam trimestralmente para a Europa,
no que chamam de pequeno tour de uma semana.
No final do ano, uma viagem mais relaxante de mês e meio
pelos países baixos. Filho mais velho faz cinema em New York,
filha do meio namora o filho do governador. Filho mais novo tem um Audi 4.
José adora jogar golfe, parapente e ultraleve. Sempre só.
Este é o final de semana.
Já o Kleberson Matheus, todo final de semana engata um churrasco em família,
ao som de Mc Chicão. Nunca tirou férias, no máximo feriadão com a galera na Prainha de Anastácio. Na última vez, Paulinho mecânico morreu afogado.
Deus o quis de volta.

José, o rico infeliz, conheceu o Kléverson Matheus, o pobre quase feliz, quando este reformou o seu banheiro de 4 X 8,
mesmo tamanho da casa dele.
Quis dar de presente a bicicleta, Kleverson Matheus não aceitou. Ele acha que tem que comprar com o dinheiro do seu próprio suor.
Assim as coisas têm mais valor.

 (escrita em 14.10.2008)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Assaltante educado


Prezada assaltada:

Ontem eu te assaltei perto da Avenida Ernesto Geisel.
Você estava com uma amiga.
Primeiro quero dizer que achei as duas muito simpáticas e a tua amiga tem um corpão de fechar comércio, a ponto de me distrair na minha atividade profissional.
Queria sinceramente pedir desculpas por tê-la esfaqueado, mas o momento crucial é uma investida em que a gente não sabe se vai continuar vivo ou não.
Neste momento precisamos estar influenciados por algum tipo de entorpecente, para aguentar o estresse.
Tive um pouco de pena de você quando, alguns minutos depois, revirei tua bolsa. Cinco reais para quem parecia ir a um passeio é realmente muito pouco.
Você deve estar numa pior, minha cliente. E em consequência, frustrou meu trabalho.
Fiquei lisonjeado quando vi que no boletim de ocorrências me deu 25 anos. Na verdade tenho 37. Só de cadeia já cumpri 16.
Outra coisa, a moto não é 125 cilindradas e nem é preta.
É uma 400 cilindradas, cinza.
Sugiro procurar um oftalmologista.
A tua bolsa joguei perto do McDonalds da Afonso Pena.
Espero que consiga melhorar teu padrão de vida.
Eu vou procurar clientes melhores, que a minha vida também está muito difícil.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Complexo de Cinderela


Minha prima quer casar.

Ela é gordinha (um metro e sessenta, com 65 quilos). Tem 27 anos. Fez o Ensino Médio.

Ela procura um homem bonito, inteligente, emprego estável e renda razoável.
Forte, 1,80m, sarado/malhado, barriguinha tanquinho, romântico, carinhoso, gentil, atencioso.
Que saiba fazer massagem, adore beijar na nuca, que abra a porta do carro.
Que pague as contas sem perguntar o que está pagando, que não coloque o pé sobre a mesa, que não fale palavrões, que não fume, que goste de passear pacientemente no shopping.
Que adore tomar um vinho tinto, que abaixe a tampa do vaso, que goste de natação e não de futebol, que curta MPB, que seja um bom dançarino e seja fiel, PLENAMENTE FIEL.
O rapaz aqui do lado disse:
- Assim até eu quero!
Minha prima, como tantas outras “mocinhas casadoiras” que ainda existem (sim, ainda existem!), sofre ainda do “complexo de Cinderela”.
Mas, e este príncipe encantado, que vem no cavalo branco, existe?
Deve existir, parece que acharam um no interior da Austrália.
Quando o encontraram “deu dois suspiros e depois morreu”.
(publicado originalmente no Blog da UOL, dia 17.05.2007)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Coisas de pobre

Pobre adora y, w, k. A começar pelos nomes, Wesley, Gleicy Kelly, Richarlyson.
A roupa também tem características próprias:
Para a menina, uma sainha curta jeans, topzinho bem colorido, umbiguinho com um piercing dependurado, sandalinha rasteirinha.
Ele vai de boné de tricô ou time indispensável, calça jeans indispensável, Nike shox falso indispensável.
Para o rico, blazer e a riquinha de tailleur.
Quesito gosto musical,
Já viu um pobre que não goste de funk ou hip hop?
Festa de pobre sem créu é impossível.
(Todo mês tem show na Fernando Correia da Costa e
Noite da Seresta na Praça do Rádio,
Zeca Pagodinho e Moacir Franco imperdíveis,
governo é quem paga tudo).
Quesito encher o bucho
Exige também a diferença de classes.
Para os ricos, presunto sadio,
Para os pobres apresuntado.
Para os ricos, chocolate,
Para os pobres, achocolatado.
E o prefixo A quer dizer sem. É como um genérico.
Festa de rico, camarão e lula a oito e noventa, no Extra.
Festa de pobre, churrasco de ponta de costela a oito e noventa, no açougue do Kleydson, sempre no “rachid” com os amigos.
Celular de pobre é pré-pago com muitos bônus e vai sempre no bolso traseiro direito. Ah! Tem cam!
Muitas das vezes, a gatinha simula estar falando com o namorado, porque ele não liga nunca (outra operadora).
Celular do filho do rico, o Riquinho, tem Tecnologia 3g, mas o menino não tem para quem ligar!