quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Insegurança pública

O que eu digo pro meu filho mais novo?

Meu caçula tem 13 anos. Sexta-feira entraram em casa e roubaram nosso aparelho DVD, comprado em 6 prestações no Carrefour. Não tinha ninguém em casa. Os habitantes ou estavam trabalhando, ou estavam estudando. Empregada já não se tem condições de pagar há um bom par de anos e a casa vive sozinha.
Pois bem. Detenho-me em 3 aspectos básicos.

1º aspecto: A sensação de impotência diante daquele que sub-repticiamente adentra a unidade mínima e essencial no capitalismo selvagem: minha única e verdadeira “propriedade”, comprada em 15 anos de prestação e trabalho continuado. Aquele primeiro olhar para o ponto onde se encontrava o objeto do teu suor é uma sensação indescritível de dor e desânimo.

2º aspecto (talvez o mais importante deste relato): No final de semana investiguei, descobri  quem me surrupiou o objeto, onde mora, sua idade (16 anos), o problema social de origem (viciado em drogas, expulso de casa, morador de rua e ladrão contumaz), encontrei as testemunhas, a boca onde trocou e cheirou meu DVD. Passo seguinte, relutei mas fui convencido a fazer um B.O. (Boletim de Ocorrência). Constatação básica: nunca mais vou ver o meu aparelho DVD e duvido muito que a polícia vá ao menos atrás. Quando se tem a origem honesta do produto, a investigação, o ladrão, as testemunhas, o destino do produto, o que mais falta além do combustível?

3º aspecto: Aquele meu filho de 13 anos, que conhece há anos a nossa luta, melhor, a nossa guerra, perguntou se eu estou com os nossos impostos em dia. Respondi que paguei todos eles, parcelado e com muito sacrifício. Aí ele me perguntou se o Estado que me devora a maior parte do salário em impostos, não teria obrigação de repor este bem. Que explicação mais convincente poderia dar a ele para encerrar este capítulo da minha história?

Assinado, o cidadão.

(publicada originalmente em 26.4.2007)

3 comentários:

  1. Este meu filho tem agora 18 anos. Nada mudou! Por isto posso postar de novo.

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  2. Lido. E agora, relido.
    Boa sorte; que o projeto siga em frente.

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    Respostas
    1. Aline: obrigado. Vc foi uma das milhares de 3 pessoas que me incentivou a retornar.

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