Falando sobre as tais carências afetivas.
Sempre a explicação é de que o outro não dá atenção suficiente.
Então é assim. Ou você é o que sufoca, e se dedica total e irrestritamente,
ou você é omisso e desinteressado. Como se faz a leitura?
Eu sou o sufocador da novela das oito.
O que não deixa respirar, o que quer saber teu nome, tua casa, teu sexo, teu trabalho. Conhecer o teu pai, tua mãe, tua filha. Aquele que sabe o que você vai comer no almoço ou tomou no café da manhã, a que horas dormiu e quantas vezes acordou.
Teu aniversário, a ração do teu cachorrinho, as ruas por onde andou, os lugares por que passou, os amigos com quem encontrou.
Quem foram os homens da tua vida, as camas que você deitou, a música que te tocou.
Teus livros, teu signo e os que combinam com ele.
Teu celular, o telefone da tua casa, do teu trabalho, onde moram teus avós e tuas irmãs. Onde foi o final de semana, a peça ou o filme que assistiu.
Que horas saiu, que horas chegou, que roupa você usou. Quem fez o teu passado, quem pode estar no teu futuro. Sou o que quer te modificar.
Eu
Só sei ser
Assim:
Intenso e profundo.
Não era isto o que você queria? Assim sou eu.
Acho que é bem melhor viver do outro jeito.
O raso e largo.
É melhor ter liberdade, ninguém para te controlar. Mas e a carência, a necessidade de atenção?
Dá-se um jeito.
Mas, e a minha carência? E tudo o que eu queria pra mim?
Esta não tem jeito.
Você não sabe sequer que horas vou trabalhar ou se estou procurando emprego. Eu parei em frente de uma fábrica com a placa:
TEMOS VAGAS.
Parece o meu coração.
(publicado originalmente no Blog Uol, 24/5/2008 - Campo Grande/MS)

😊
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