terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A invasão dos beija-flores

Problemas acontecem sem a gente esperar. Era pra ser um sábado normal. Logo de manhã, tão logo abri a porta da sala, ela foi invadida por dois beija-flores.
De cara o problema ortográfico: beija-flores, beijas-flores? E agora ainda a reforma ortográfica recente: com hífen ou sem hífen? E o hífen, continua com acento?
Eram dois bem diferentes um do outro. Não que eu possa afirmar, mas me pareceram a mãe e filho, no primeiro vôo dele, que a mãe sempre acompanha. Uma questão que nunca vou decifrar.
A gestação deles dura 13 a 15 dias e é a mãe que resolve tudo: constroem os ninhos, chocam os ovos e protegem os filhotes. Eles visitam 1.500 flores por dia.
 A mãe tinha uns 8 cm e a pontinha de trás era como das andorinhas. O filho tinha uns 5 cm, sem nada atrás.
Foram várias as tentativas educadas e sensibilizadas para que os dois se retirassem da minha sala, preocupado em não feri-los. Tentei com o vizinho, que é limpador de piscina, mas ele não estava em casa para me emprestar uma rede para ajudar na orientação. Quando saímos de manhã, deixamos a porta aberta, na esperança que, quando voltássemos, eles já pudessem estar bem longe.
Distraí-me no intenso movimento do sábado, de forma que novamente ao entrar em casa, deparei-me surpreso com o ilustre visitante. A mãe já tinha ido.
De tarde fiz novas tentativas frustradas de fazer o pequenino ganhar o mundo.
O beija-flor ou colibri tem a língua bifurcada pra sugar o néctar da flor. Lembrando disto, usei outra técnica. Coloquei um pote com água e açúcar na entrada da sala, ao lado de uma bela flor amarela, para ajudá-lo a achar o caminho. Não resolveu. E ainda ouvi a crença infundada da minha mulher de que isto causa uma doença que o leva à morte. Tive que pesquisar na internet.  
O coitado ficava lá perto do teto batendo as asas e pairando, 70 a 80 vezes por segundo até. E voando para trás, como única ave capaz de fazer isto. De vez em quando o bandô da cortina servia como descanso.
Não dava pra chamá-lo porque não sabia a língua dele. Tentei imitar seu canto, agudo e seco, mas nunca fui bom imitador de passarinhos. Cantar aquela música do Pepeu Gomes seria ridículo (...beijo a flor, mas a flor que eu desejo...). Lembrei também a do Cazuza (...eu protegi teu nome por amor, em um codinome beija-flor...). Menos indicada ainda.
Tive q sair novamente. A porta ficou aberta como antes.
De noite quando voltei, ele tinha morrido na minha sala.
(escrita em 7.4.2009)

4 comentários:

  1. Dizem que quando um beija-flor adentra nossa casa é sorte. E o seu que morreu?
    Mesmo assim, desejo-lhe sorte. Sempre.
    Adorei o texto que, como sempre, deixa transparecer o seu lado mais sensível. Parabéns!

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  2. Implícitas no cenário estão várias questões do nosso cotidiano. O que pode significar a morte do beija-flor? Só pessoas sensíveis, assim como vc, podem entender.

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  3. Adorei você colocar figuras!
    Se eu soubesse disto antes, tinha mandado uma de beija-flor linda que eu tenho!

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    1. Vou pensar um outro texto sobre os bichinhos, então, só pra vc ilustrar. Obrigado!

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